Repórter MT
O Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) denunciou Paulo Bertoldo Júnior Neto por feminicídio e posse irregular de arma de fogo. Ele é acusado de matar a tiros a esposa, a suplente de vereadora Francisca Marta de Jesus Bertoldo. Inicialmente, ele alegou à polícia que ela havia cometido suicídio, mas acabou sendo preso por apresentar depoimentos contraditórios. O MP também pediu indenização mínima de R$ 50 mil para os filhos da vítima.
O crime ocorreu no dia 24 de dezembro, véspera de Natal, em Nova Santa Helena (a 599 km de Cuiabá), em Mato Grosso. A denúncia foi apresentada no último dia 8.
O documento foi assinado pelo promotor de Justiça Márcio Schimiti Chueire, que destacou que o crime foi cometido em razão da condição do sexo feminino, no âmbito da violência doméstica e familiar.
“O crime foi cometido por razões da condição do sexo feminino, no âmbito da violência doméstica e familiar, eis que a vítima mantinha relação íntima de afeto com o denunciado. Ademais, a ofendida possuía dois filhos e foi morta na presença destes”, diz trecho da denúncia.
Além da condenação de Paulo Bertoldo, o promotor pediu à Justiça a fixação de valor mínimo de R$ 50 mil para reparação dos danos causados aos filhos da vítima. O pedido ainda não foi analisado.
De acordo com a denúncia, Paulo era casado com Francisca, que era suplente de vereadora no município e conhecida como Professora Martinha. Ambos tinham dois filhos menores de idade, de 4 e 15 anos.
Relatos de testemunhas apontam que o relacionamento entre os dois era permeado por controle, manipulação, ameaças e agressões, e que o homem chegava ao ponto de impedir o contato da mulher com familiares, que passaram a orientá-la a se separar do marido.
Diante dos conselhos recebidos pela Professora Martinha, o feminicida passou a dizer que a mataria, bem como mataria os filhos.
A vítima estava debilitada, pois enfrentava um quadro clínico de Parkinson e fazia uso de medicamentos controlados.
No dia do feminicídio, o casal iniciou uma discussão que evoluiu para agressões físicas. O agressor empurrou a mulher no chão e, em determinado momento, Paulo pegou a arma de fogo e atirou contra ela. O corpo foi encontrado entre dois armários, sugerindo que a vítima tentava se proteger.
O feminicida chegou a alterar a cena do crime, colocando a arma junto ao corpo da vítima para sustentar uma versão de suicídio. À polícia, ele apresentou versões desencontradas, afirmando inicialmente que estava na oficina mecânica de sua propriedade quando a mulher teria se suicidado e, depois, dizendo que estava tomando banho.
Consta ainda na denúncia do MP que o assassino intimidou os filhos, obrigando-os a confirmar a narrativa de suicídio.
O caso
Na tarde do dia 24, a Polícia Militar foi acionada às 16h30 após denúncia de um possível suicídio. No local, os militares encontraram a vítima no chão, segurando um revólver. Ela apresentava ferimentos no braço esquerdo e na região do tórax, além de grande quantidade de sangue espalhada pelo piso da casa.
Uma ambulância do município foi acionada, e a equipe médica constatou o óbito ainda no local.
No imóvel estavam o marido da vítima e os filhos do casal. Em relato inicial à polícia, o marido afirmou que estava em uma oficina quando recebeu uma ligação da esposa dizendo que iria tirar a própria vida. Segundo ele, ao chegar à residência, encontrou a mulher com a arma em mãos e tentou desarmá-la, momento em que ocorreu o disparo.
Em outro depoimento, ele apresentou versão diferente, alegando que estava no banheiro tomando banho e que, ao sair, viu a esposa apontando a arma em sua direção. Disse ainda que tentou tomar o revólver, entrou em luta corporal com Martinha e que ambos caíram no chão, ocasião em que a arma teria disparado.
Diante das inconsistências nos relatos e das circunstâncias do fato, Paulo Bertoldo foi preso em flagrante.
Nas investigações iniciais, foi constatado que o marido e a vítima entraram em luta corporal e, na sequência, ele teria efetuado disparos de arma de fogo contra ela. O relatório investigativo aponta que o corpo da vítima estava atrás de um móvel, o que pode indicar que ela tentava se proteger do agressor.
A polícia também apontou que as marcas encontradas no tórax e no braço da Professora Martinha não são compatíveis com suicídio. Além disso, foram constatados ao menos cinco orifícios de entrada no corpo da vítima. A arma encontrada na mão dela estava municiada com seis cartuchos, dos quais apenas um estava deflagrado.
Após audiência de custódia realizada no dia seguinte, a prisão em flagrante foi convertida em preventiva.
Paulo Bertoldo chegou a pedir autorização à Justiça para comparecer ao velório e ao sepultamento da vítima. O pedido foi inicialmente deferido pelo juiz Edson Carlos Wrubel Júnior, do Plantão da Comarca de Itaúba, mas o magistrado voltou atrás após a Polícia Militar alegar que a presença do assassino no funeral e no enterro poderia colocar em risco a integridade dos presentes, dos policiais e do próprio criminoso.
Feminicídios em MT
A Professora Martinha foi a 53ª vítima de feminicídio em Mato Grosso, que registrou 54 mulheres assassinadas no contexto da violência doméstica em 2025, o maior número registrado nos últimos quatro anos.






