Operação aponta que cestas básicas do Programa SER Família abasteciam mercadinho em Barra do Garças; prejuízo chega a R$ 1,95 milhão

Imagem: Reprodução

Repórter MT

A Polícia Civil investiga um esquema de desvio de cestas básicas e kits de higiene que deveriam ser entregues a famílias em situação de extrema pobreza em Mato Grosso. Segundo a apuração, os produtos pertenciam ao Programa SER Família Solidário, coordenado pela Secretaria de Estado de Assistência Social e Cidadania (Setasc), mas teriam sido retirados irregularmente por um grupo com participação de vereadores e servidores públicos.

De acordo com a investigação, os desvios ocorriam a partir da Arena Pantanal, em Cuiabá, local usado como ponto de armazenamento e liberação dos lotes. Os servidores públicos Benier Marcos Silva e Renato de Souza Soares são apontados pela Polícia Civil como líderes do esquema.

Eles assinavam a retirada das cargas utilizando nomes de organizações não governamentais (ONGs) e associações beneficentes de fachada. Sem o conhecimento dos verdadeiros presidentes dessas entidades ou dos dirigentes da secretaria, milhares de suprimentos eram liberados diretamente para o grupo criminoso.

Assim que os caminhões caçamba, pertencentes à frota da Secretaria Municipal de Educação (SME) de Barra do Garças, eram carregados em Cuiabá, iniciava-se a viagem de desvio. Para garantir o transporte, os operadores do esquema pagavam diárias extras privadas, via transferências eletrônicas (PIX), para motoristas da prefeitura aceitarem fazer o frete ilegal. A carga viajava misturada ao fluxo regular do município para despistar qualquer fiscalização nas rodovias.

Ao chegarem a Barra do Garças, em vez de serem encaminhados aos galpões oficiais da assistência social ou distribuídos mediante triagem técnica para a população cadastrada, os caminhões seguiam rotas noturnas alternativas. Imagens de segurança de propriedades privadas flagraram o momento em que os veículos oficiais descarregavam o material em chácaras particulares.

Após os alimentos e kits de higene chegarem no local, cinco vereadores de Barra do Garças, identifcados no inquérito como: Valdeí Leite Guimarães, Adilson Tavares Lopes, Allankley Lopes de Souza, Armando José de Brito e Elton Melo Marques, utilizavam caminhonetes e carretinhas particulares para retirar lotes de alimentos.

Eles faziam a entrega informal e direta a moradores, sem exigência de Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), Número de Identificação Social (NIS) ou prestação de contas, visando à promoção política pessoal e ao assistencialismo eleitoreiro.

Kits eram vendidos em mercadinho

Os kits de higiene e limpeza eram deliberadamente separados das cestas de alimentos e direcionados para a venda clandestina no comércio local. A rota final desses itens terminava diretamente no estabelecimento “Super Santo Antônio“, localizado no Bairro Santo Antônio, em Barra do Garças, e pertencente ao irmão de um dos operadores logísticos da organização.

Os elementos de informação produzidos no curso da presente investigação policial revelam que RICARDO SOUZA SOARES, irmão de RENATO DE SOUZA SOARES, conhecido como “RENATINHO”, deve ser incluído como alvo de medidas probatórias, especialmente em razão de sua vinculação ao estabelecimento comercial Super Santo Antônio, localizado no Bairro Santo Antônio, em Barra do Garças/MT, apontado nos relatórios policiais como local de interesse para apuração da possível comercialização, armazenamento, ocultação ou destinação dos kits de higiene/limpeza desviados de sua finalidade pública (…) A relevância cautelar de RICARDO decorre de sua ligação familiar direta com RENATINHO, apontado nos autos como operador logístico do fluxo clandestino de retirada, transporte, descarregamento, armazenamento e distribuição ilícita das cestas básicas e kits de higiene/limpeza oriundos da SETASC. A investigação já demonstrou que imóveis e estruturas vinculadas à família de RENATINHO teriam sido utilizados como pontos de descarregamento e guarda de cargas públicas assistenciais, notadamente no contexto das remessas de dezembro de 2025, quando testemunhas relataram a descarga de cestas e kits em imóvel ligado à família do investigado“, diz trecho do inquérito.

Dessa forma, produtos comprados com dinheiro público para socorrer famílias vulneráveis eram transformados em moeda de troca política por parlamentares ou vendidos em prateleiras comuns, gerando lucro privado em cima de família carentes.

Polícia Civil pede a prisão dos envolvidos

No inquérito, a polícia afirma que tem registros de rastreamento por satélite, transações bancárias e imagens de circuitos internos, e diante das provas representou formalmente pelo pedido de prisão dos principais integrantes do grupo criminoso.

Benier Marcos Silva: Servidor público apontado como o articulador central e mentor intelectual da fraude documental. Era o responsável por inserir seu próprio nome como falsário “responsável legal” de ONGs e associações para retirar as cargas de alimentos na Arena Pantanal.

Renato de Souza Soares (“Renatinho”): Servidor público e principal operador logístico do esquema. Ele comandava a escolta das cargas desviadas, gerenciava os trabalhadores contratados para os descarregamentos noturnos e realizava os pagamentos clandestinos via PIX para os motoristas da frota pública.

Valdeí Leite Guimarães (“Pebinha”): Vereador de Barra do Garças, apontado por receber lotes vultosos de cestas básicas desviadas e utilizar sua estrutura política para distribuição informal com fins eleitorais.

Adilson Tavares Lopes: Vereador do município, investigado por flagrantes de transporte e fracionamento ilícito de bens do Programa SER Família em propriedades particulares.

Allankley Lopes de Souza (“Alan Construtor”): Vereador do município, envolvido no recebimento direto e destinação clandestina de insumos assistenciais sem qualquer prestação de contas aos órgãos fiscalizadores.

Armando José de Brito: Vereador do município, que utilizava sua influência política e veículos particulares para desviar e distribuir alimentos destinados a famílias em extrema pobreza.

Elton Melo Marques: Vereador do município, também alvo da representação policial por integrar o núcleo distributivo e se beneficiar do esquema de desvio de mantimentos públicos.

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