Thais Reckziegel
Insatisfação com o trabalho, cansaço constante, dificuldade em se concentrar e sensação de sobrecarga. Para muitos brasileiros essa realidade tem se tornado rotina!
Enquanto psicóloga clínica tenho escutado cada vez mais queixas relacionadas ao ambiente de trabalho. Autocobranças por melhores performances, profissionais que respondem mensagens fora do horário de trabalho, acumulação de funções ou sentimento que nunca podem ‘desligar’, além da perda do limite entre o que é pessoal e o que é profissional, são alguns exemplos desse cenário.
Você certamente já deve ter ouvido falar em Síndrome de Burnout – reconhecida pela Organização Mundial de Saúde como um adoecimento em decorrência do ambiente de trabalho.
O Brasil ocupa hoje o segundo lugar no ranking mundial de países com mais casos de afastamento de trabalho devido essa síndrome.
Além disso, o país conhecido pelo seu ‘jeitinho caloroso e alegre de ser’, possui hoje a maior prevalência de depressão e ansiedade entre os países da América Latina.
Em uma sociedade com mudanças aceleradas e cobranças por maiores entregas e desempenho, na busca por alcançar a ‘melhor versão’ em todas as esferas da vida, não é de se assustar que as pessoas estejam pagando essa conta com a própria saúde mental e, em alguns casos, a física também.
Ao mesmo tempo, tem-se percebido aumento na busca por tratamentos psicológicos e psiquiátricos.
É reconhecido que a psicoterapia e a psiquiatria podem sim ajudar nesses casos, oferecendo um acolhimento profissional ético para as queixas que o trabalhador possui, além de auxiliar na busca por oportunidades de mudanças de rotina que podem proporcionar maior bem-estar emocional e melhora no quadro de saúde.
No entanto, é necessário refletir sobre a gravidade desses dados contraditórios. Se o adoecimento em decorrência do trabalho cresce mesmo com mais pessoas buscando ajuda, talvez seja hora de encarar uma questão incômoda: não estamos diante de um problema individual, mas de um modelo social de trabalho que adoece.
Ao pensarmos na realidade da saúde mental no Brasil, a pergunta não deve ser apenas como cuidar das pessoas, mas que tipo de dinâmicas de trabalho estamos sustentando enquanto sociedade.
Demandas de trabalho exaustivas, aumento nos casos de violências psicológica, moral e sexual no ambiente de trabalho, condições de trabalho precárias, crise econômica com salários que mal são possíveis para a pessoa sobreviver, havendo um aumento de pessoas buscando por um segundo trabalho para complementar a renda familiar… são alguns dos exemplos de situações que estamos vivenciando e que contribuem para o adoecimento mental dos trabalhadores.
Se queremos pensar em uma melhoria na saúde e qualidade de vida da população brasileira, devemos incluir nos nossos debates a busca por estratégias para mudança desse cenário, que deverá acontecer de maneira coletiva, não apenas individual.
Thais Karolyne Reckziegel
Psicóloga, mestre em psicologia, especialista em avaliação psicológica, orientadora profissional e de carreira, com experiência na prática clínica com demandas de ansiedade, depressão, burnout, escolhas profissionais e transição de carreira.






